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Assassinato Colateral...

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Literatura, recordações e secas: Graciliano Ramos, Delmiro Gouveia e representações do sertão

Literatura, recordações e secas: Graciliano Ramos, Delmiro Gouveia e representações do sertão Em uma crônica escrita nos anos 30, Graciliano Ramos (1892-1953) avaliava as possíveis relações entre as secas no Nordeste e o parco desenvolvimento da economia regional. Segundo ele, o cidadão estrangeiro que não tivesse informações sobre o Brasil, que desconhecesse o país e lesse “um dos livros que a nossa literatura referente à seca tem produzido, literatura já bem vasta, graças a Deus, imaginaria que aquela parte da terra que vai da serra Ibiapaba a Sergipe, é deserta, uma espécie de Saara”. Como outros literatos e jornalistas, o autor não disfarçava o descontentamento com as impressões negativas transmitidas pela região. Atribuía isto ao trabalho dos ficcionistas do século XIX e criticava o enfoque demasiadamente romântico conferido à seca, em detrimento de outros fatores de penúria local: “certamente há demasiada miséria no sertão, como em toda a parte, mas não é indispensável que a...

Medusa pintada num prato

J.Dimitri Deu na revista: Uma criança Nua Num balde d’água Suja Imunda inunda Daqui até Jacarta. Vejo uma medusa ali, Estranhamente viva... Petrificado Observo o seu traçado assimétrico O olhar opaco Assim... Meio tétrico. Tudo rabiscado às pressas Num prato de comida (Macarrão e Molho). Dali, Seu olhar cético Anseia o mundo inteiro Daqui até Jacarta. Anda, esperança! Já parta! Vai e navega Chega em Jacarta! Imagens salgadas em preto e branco. Ruídos orquestrados de um mundo insano Quem, em sã consciência, os quer ouvir? Lá vai a medusa: Numa vassoura de bruxa, Numa jangada mundo afora... À forra com o mundo! E, Daqui até o reino dos justos Daqui até o fim da sinfonia Daqui até Jacarta, Quanto de miséria, hein? Daqui até Jacarta, Quantas milhas têm?

Rosely de Arcoverde

Rosely de Arcoverde Dilton Maynard Conheci Rosely de Arcoverde quando viajava entre Pernambuco e Alagoas. Na verdade, foi ela quem me conheceu. Acho mais justo dizer assim. Era meio dia e Garanhuns tinha o vento frio costumeiro, mas o ônibus estava quente. Ela sentou numa poltrona após a minha. Ajeitou as coisas – uma bolsa, um agasalho e o celular. Logo depois começou a falar. E como Rosely falava. Parecia impaciente. Não conhecia Palmeira dos Índios, nem a pessoa que a receberia na rodoviária. Estava com medo de cair no sono e perder a parada. Tentei acalmar a moça, explicando que o motorista cuidava de não deixar isto acontecer, porque era prejuízo para a empresa. Tentei, em vão, retomar a minha leitura. A garota reclamou do frio, depois do calor, da poltrona; reclamou de um pedinte que não havia saído de perto dela enquanto esperava o ônibus. O motivo da viagem é curioso. A moça iria encontrar um primo recém-aparecido. Fruto de um amor interrompido por conta da migração de u...

Notas iniciais sobre a boemia sergipana (5)

  Chega o rádio Nova fase na vida de João Melo. O filho de médico, aluno do respeitável Atheneu, agora era atração de cabaré. Por essa época, já é possível apresentar um grupo de boêmios em que João Melo estava envolvido. Eis apenas alguns: Macepa, João Lopes, Argolo, Carnera, João Moreira. Todos envolvidos com música. Assim, a cada dia os estudos ficavam mais distantes. Estudos mesmo, só dos acordes do violão e falsetes dos cantores do rádio que a estática ameaçava omitir. A inexistência de uma rádio difusora em Sergipe dificultava um melhor sinal nas transmissões. Mas em 1939 este quadro mudou. O Governo do Estado estava decidido a implantar uma radiodifusora. Após uma batalha jurídica, a concessão foi obtida. Contudo, os profissionais eram poucos. Por isto, era preciso treinar os futuros nomes do rádio sergipano. Era preciso que alguém ensinasse aos cantores locais a usar melhor os microfones, como superar certos percalços. Quando se iniciaram as primeiras experiências d...

Notas iniciais sobre a boemia sergipana (4)

                                                       Primeiros acordes, primeiros cabarés F oi do Carro de Propaganda Guarany que João Melo e Carnera cantaram juntos para grande público pela primeira vez. Dono de potentes alto- falantes, o Carro pertencia a Augusto Luz. Figura conhecida na cidade, Luz era dono de diversos estabelecimentos. Entre eles estavam o cinema Guarany e até mesmo uma farmácia. No empreendimento de propaganda, o empresário tinha como sócio Cláudio Silva, que participava do negócio como locutor. A aparelhagem, vinda de Ohio (USA), era única em Sergipe. Os dois rapazes não deixaram a desejar. Tudo indica que agradaram. João Melo, por exemplo, recebeu o convite para uma pequena temporada. Mas, o que ...

Notas sobre a boemia sergipana (3)

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                 Carnera, um discreto mestre seresteiro C arnera tocava violão. E tocava bem. Tão bem, que encantou João Melo. Do encontro com Carnera e seu violão brotou a idéia. João Melo queria aprender a tocar o instrumento.Foi até Carnera e revelou a vontade. O pugilista de viola ofereceu-se para ensinar. Mas advertiu sobre a necessidade de um violão, essencial à prática. João Melo teve que providenciar. Naquele tempo, a Casa de Detenção sergipana oferecia, a preço de custo, diversos utensílios feitos por seus músicos. Dentre tais ofertas, era possível obter um violão. Verdade seja dita, não eram os melhores instrumentos. Mas eram os únicos que a mesada acumulada de João Melo conseguiria comprar. E, para um principiante, um violão ruim não era algo tão catastrófico assim. Comprado o violão, vieram as aulas. Carnera explicava pacientemente. Muitas vezes, com o cigarro no canto da boca, pr...