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domingo, 23 de janeiro de 2011

WikiLeaks - ou os poderosos também temem!

por: Francisco Carlos Teixeira Da Silva

Professor Titular de História Moderna e Contemporânea/UFRJ



Logo que a notícia circulou dando conta que a rede diplomática americana – entre outras instituições – havia sido rompida e que importantes “segredos de Estado” americanos viriam à público, a mídia internacional buscou os aspectos mais sensacionais e comprometedores dos “telegramas” diplomáticos americanos. Tratava-se da publicação, sem censura, dos relatórios enviados pelo pessoal diplomático americano – a maior rede de diplomacia do mundo – para o departamento de Estado (equivalente de ministério do exterior) em Washington. Sendo material para informar a formulação da politica externa americana era, por sua própria natureza, material secreto e, quase sempre, indiscreto.
Sem dúvida o material mais sensível – despacho da secretária de Estado Hillary Clinton com o Presidente Obama ou os debates do Conselho de Segurança Nacional – não estava em risco. Tratava-se, tão somente, da correspondência entre as embaixadas e consulados americanos e Washington. Contudo, mesmo assim, criou-se um clima de escândalo e de temor, especialmente pelo volume do material (mais de 50 mil documentos), o que exigia uma pesquisa demorada e garantiria o surgimento de novidades durante um bom tempo. Assim, os segredos da WikiLeaks abasteceriam durante semanas a mídia internacional.
Tal aspecto de indiscrição e de escândalo foi reforçado pela trajetória “out sider” do principal mentor da WikiLeaks, o australiano Julian Assange, que passou a assumir, e representar, um novo espirito de liberdade informacional. Sua posterior prisão na Suécia, onde o sitio eletrônico é hospedado, sob a acusação de estupro (decorrente de uma legislação considerada puritana e controladora, sem equivalência na maioria dos países democráticos do Ocidente) acabou por reforçar o caso WikiLeaks como paradigmático para os novos tempos da globalização informacional.
No seu conjunto o material disponibilizado pela WikiLeaks é pobre – reafirmamos que os documentos estratégicos ficaram resguardados. Trata-se, em suma, de correspondência consular, muitas vezes redigida por agentes diplomáticos com pouca, ou nenhuma, familiaridade com o tema tratado ou com o país referido. Este é, em verdade, um traço característico da diplomacia americana. Os Estados Unidos usualmente utilizam-se de homens externos à carreira diplomática – como empresários, funcionários de outros departamentos, professores, religiosos, policiais, agentes humanitários e militares – para funções de informação, com ou sem status diplomáticos. O resultado é medíocre, desigual e muito dependente da formação e da ideologia de tais agentes.
Muitos de tais agentes em especial embaixadores, assumem seus cargos em função de favores prestados aos presidentes em exercício, em especial contribuições financeiras durante as campanhas eleitorais (imagine o escândalo que isso seria no Brasil!).

Da mesma forma, a diplomacia americana – tal qual o americano médio – são muito mal informados, e formados, em relação aos demais países, povos e culturas do mundo. Dificilmente conseguem abrir mão do “seu lugar de fala” para descrever e analisar outras sociedades, produzindo constantemente lugares comuns, comparações com a pretendida excelência do “american way” em toda e qualquer atividade e produzindo forte reducionismo histórico e etnocentrismo cultural exacerbado.

Assim, o material da WikiLeaks veio apenas confirmar aquilo que os especialistas em relações internacionais já sabiam: a superficialidade das análises americanas sobre o mundo. Não nos interesse aqui repetir o imenso elenco de gafes e de banalidades produzidas por diplomatas bem pagos e bem equipados, mas um par destas bobagens basta para dar a dimensão da saturação culturalista americana. Como exemplos: a análise do governo russo (Medvedev e Putin) como um “comics” americano de Batman e Robin ( qual seria o “comics” da dupla Bush+Dick Cheney?); o telegrama de Hillary querendo saber da saúde mental de Cristina Kirchner (será que a Suprema Corte americana não poderia pedir um teste de sanidade do presidente Bush?) ou a afirmação que o sistema politico brasileiro é “bizantino” (ora, o sistema eleitoral americano baseado em delegados, por cima do voto popular, e com uma cédula eleitoral pré-histórica é o que?).

Em suma, nada há no conjunto dos documentos que altere decididamente um livro de bom nível sobre relações internacionais escrito previamente. Mas, para sermos sinceros, os documentos revelados pela WikiLeaks prestaram um grande favor ao revelar dados novos. Vejamos. Em primeiro lugar a comprovação da hipocrisia americana no tratamento da questão do aquecimento climático – este é um ponto relevante e que dá conta da superficialidade e da encenação promovida por Obama ou da legalidade internacional em face do pedido de Hillary para espionar a ONU. Em segundo lugar os documentos revelam a extrema ingenuidade e falta de percepção de altos funcionários internacionais prontos para fazer confidências, incluindo aí fofocas contra seus colegas de governo, a agentes americanos. Assim, vemos um poderoso banqueiro português, um bispo brasileiro e um ministro da defesa candidamente produzindo análises sobre colegas e superiores – incluindo aí o Papa – para os diplomatas americanos. Por fim, vemos também a duplicidade da politica externa americana, quando os mesmos diplomatas que concordam com seus parceiros estrangeiros em reuniões e conferências apressam-se, em seguida, para escrever para “Mamãe Ganso” criticando duramente os mesmos parceiros, incluindo aí as parcerias mais cooperativas, como ingleses, árabes do Golfo, israelenses e mesmo brasileiros.

Por fim, o balanço possível do caso WikiLeaks é pobre, excetuando o fato que “daqui prá frente tudo será diferente”, para aqueles que possuem bom senso, ao falar com funcionários americanos. O melhor de todo o caso foi, contudo, a reação – espontânea, imediata, não coordenada - do cyberativisimo mundial contra os governos e empresas que participaram da repressão a WikiLeaks e seu mentor.




Extraído de: TEIXEIRA DA SILVA, Francisco Carlos. WikiLeaks - ou os poderosos também temem! Revista Eletrônica Boletim do TEMPO, Ano 6, Nº1, Rio, 2011 [ISSN 1981-3384]

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A Ciberguerra do Wikileaks


Por Manuel Castells em 15/12/2010
Reproduzido do La Vanguardia, 11/12/10, tradução de Eduardo Graeff (www.eagora.org.br); intertítulos do OI

Como documentei no meu livro Comunicação e Poder, o poder se baseia no controle da comunicação. A reação histérica dos Estados Unidos e outros governos contra o Wikileaks confirma isso. Entramos numa nova fase da comunicação política. Não tanto porque se revelem segredos ou fofocas como porque eles se espalham por um canal que escapa aos aparatos de poder. 

O vazamento de confidências é a fonte do jornalismo de investigação com que sonha qualquer meio de comunicação em busca de furos. Desde Bob Woodward e sua "Garganta Profunda" no Washington Post até as campanhas de Pedro J. [Ramírez, fundador do diário El Mundo] na política espanhola, a difusão da informação supostamente secreta é prática usual protegida pela liberdade de imprensa.
A diferença é que os meios de comunicação estão inscritos num contexto empresarial e político suscetível a pressões quando as informações resultam comprometedoras. Daí que a discussão acadêmica sobre se a comunicação pela internet é um meio de comunicação tem consequências práticas. Porque se o é (algo já estabelecido na investigação) está protegida pelo princípio constitucional da liberdade de expressão, e os veículos e jornalistas deveriam defender o Wikileaks porque um dia pode ser a vez deles. 

Ordem de prisão

Ocorre que ninguém questiona a autenticidade dos documentos vazados. De fato, destacados periódicos do planeta publicaram e comentaram esses documentos para regozijo e educação dos cidadãos que recebem um cursinho intensivo sobre as misérias da política nos corredores do poder (com efeito, por que [o primeiro ministro espanhol José Luis] Zapatero está tão preocupado?).

O problema, diz-se, é a revelação de comunicações secretas que poderiam dificultar as relações entre estados (o perigo para vidas humanas é baboseira). Na verdade seria preciso sopesar esse risco contra a ocultação da verdade sobre as guerras aos cidadãos que pagam e sofrem por elas. 

Em qualquer hipótese, ninguém duvida que, se essas informações chegassem aos meios de comunicação, estes também quereriam publicá-las (se poderiam é outra questão). E mais: uma vez difundidas na rede, publicam-nas. O que está em questão é o controle dos governos sobre seus próprios vazamentos e sobre sua difusão por meios alternativos que escapam à censura direta ou indireta. Um tema tão fundamental, que motivou uma reação sem precedentes nos Estados Unidos, com apelos ao assassinato de Assange por líderes republicanos e até colunistas do Washington Post e uma grita mundial generalizada de [Hugo] Chávez até [Silvio] Berlusconi, com a honrosa exceção de Lula e a significativa reação de [Vladimir] Putin.

A esta cruzada para matar o mensageiro se uniu a justiça sueca numa história rocambolesca onde o pseudofeminismo se alia à repressão geopolítica. Dá-se que as namoradas suecas de Julian Assange (alguém investiga sua conexão com serviços de inteligência?) o denunciaram porque em pleno ato (consentido) a camisinha rasgou, ela diz que não queria continuar e Assange não pôde ou não quis interromper o coito e isso, segundo a lei sueca, poderia ser violação. O que não impediu que a violada organizasse no dia seguinte em sua casa uma festa de despedida para Assange. 

A partir de tamanho ato de terrorismo sexual, a Interpol emite uma euroordem de prisão com nível de alerta máximo, desmentindo que seja por pressão dos Estados Unidos. E quando Assange se entrega em Londres, o juiz não aceita fiança, talvez para enviá-lo aos Estados Unidos via Suécia. [A fiança foi concedida na terça-feira,14/12, mas a Suécia entrou com pedido de apelação.]

"Infraestrutura icônica"

Com o mensageiro atrás das grades, falta mandar para lá a mensagem. E aí começam pressões que levam a que PayPal, Visa, MasterCard e o banco suíço do Wikileaks fechem suas contas, que cancelem seu domínio e que a Amazon o remova de seus servidores (o que não impede a Amazon de oferecer por 7 dólares o conjunto completo de e-mails vazados). 

A contraofensiva internauta não se fez esperar. Os ataques de serviços de inteligência contra a rede do Wikileaks fracassaram porque proliferaram as redes espelho, ou seja, cópias imediatas das redes existentes, mas com outro endereço. A esta altura há mais de mil em funcionamento (se quiser ver a lista google wikileaks.mirror). 

Em represália à tentativa de silenciar o Wikileaks, Anonymous, uma popular rede hacker, coordenou ataques contra as empresas e instituições que o fizeram. Milhares de voluntários se juntaram à festa, utilizando o Facebook e Twitter, embora com crescentes restrições. Os amigos do Wikileaks no Facebook superaram o milhão e aumentam a uma pessoa por segundo. Wikileaks distribuiu a 100.000 usuários um documento encriptado com segredos supostamente mais danosos para os poderosos, cuja chave se espalharia caso a perseguição se intensifique.

Não está em jogo a segurança dos Estados (nada do revelado põe em perigo a paz mundial nem era ignorado nos círculos de poder). O que se debate é o direito do cidadão de saber o que fazem e pensam seus governantes. E a liberdade de informação nas novas condições da era da internet. Como dizia Hillary Clinton em sua declaração de janeiro de 2010: "A internet é a infraestrutura icônica da nossa era… Como acontecia com as ditaduras do passado, há governos que se voltam contra os que pensam de forma independente usando esses instrumentos". Agora ela aplica a si mesma essa reflexão?

Novas gerações

Porque a questão fundamental é que os governos podem espionar, legal ou ilegalmente, aos seus cidadãos. Mas os cidadãos não têm direito à informação sobre aqueles que atuam em seu nome, a não ser na versão censurada que os governos constroem. Neste grande debate vão ver quem realmente são as empresas de internet autoproclamadas plataformas de livre comunicação e os meios de comunicação tradicionais tão zelosos de usa própria liberdade. 

A ciberguerra começou. Não uma ciberguerra entre Estados como se esperava, mas entre os Estados e a sociedade civil internauta. Nunca mais os governos poderão estar seguros de manter seus cidadãos na ignorância de suas manobras. Porque enquanto houver pessoas dispostas a fazer leaks e uma internet povoada por wikis surgirão novas gerações de wikileaks.

Publicado originalmente em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=620IMQ020

Hacktivismo no Futuro do Pretérito


Daniel Santiago Chaves

Com o progressivo transcorrer do aparentemente inesgotável século XX e a chegada da Era da Informação, prenunciou-se o fim do capitalismo industrialista e da sociedade centralmente estabelecida em produção manufatureira em larga escala serial. Decorrente transformação e posfácio da era das luzes, de tudo se esperou e restava cada vez mais a convicção do futuro no conhecimento: de Peter Drucker a Daniel Bell, a sociologia das organizações começou a progressivamente atentar para a vanguarda do que hoje nós conhecemos como o amplo conceito de cibercultura.

Essa cultura cibernética, que assumia formatações distantes que variavam desde organogramas das então inovadoras empresas ‘multinacionais’ até o universo cyberpunk de William Gibson – passando por ingênuas noções universalistas de Aldeia Global, como diria Marshall McLuhan – estava profundamente firmada na tradição moderna e republicana de liberdade, fraternidade e igualdade, pensara Pierre Lévy. Assim sendo, essa admirável nova forma de apreensão do homem diante do seu novo espaço – o ciberespaço – formava e deformava comportamentos, práticas sociais, afetivas e culturais, disciplinando e rompendo mecânicas coreográficas de biopoder para um século XXI que não era nem bom, nem ruim, nem neutro.

A cibercultura, em princípio, precisa ser dissociada da conceituação ingênua e pouco profunda sobre o uso massivo de computadores, definição esta por sua vez decorrente do explosivo informacionalismo da nossa sociedade contemporânea e que gera uma leitura superficial indutiva sobre o tão aguardado pantribalismo da Internet. Após a Segunda Guerra Mundial, surgiram inventivas leituras sobre a customização corpórea através de próteses – a figura mítica do Cyborg definida por Klein e Clynes em 1960 - que representam uma amostra do que os impulsos pós-futuristas do capitalismo contemporâneo poderiam representar em novos horizontes da produção, performance e disciplina dos corpos. Do niilismo de Laranja Mecânica ao clima noir da ‘Sprawl trilogy’ de Gibson, passando pela distopia de Philip K. Dick, o relacionamento dos homens com as máquinas – e as suas drogas e ‘benesses’ derivadas - foram interpretados consecutivamente como formas de relacionamento vertical, opressivo e desestruturante do caráter humano e pulsante do ser. O paradigma tipicamente pertencente ao século XX e ao pessimismo “low life, high tech” vigia às vésperas da tão esperada e nunca ocorrida III Guerra Mundial. Sem Bomba Atômica, o medo do futuro residia na própria perpetuação da espécie humana.

A ruptura com esse amplo conjunto de expectativas distópicas se deu exatamente no fim do período gelatinoso que vai do fim da Guerra Fria (1945-1989/1991) e a Crise Financeira de 2008, quando finalmente seria sepultado o século XX juntamente ao seu império sobrevivente, os EUA. Quando se funde o ataque às Torres Gêmeas ao capitalismo especulativo industrialista americano, com o frigir das guerras no Oriente Médio e um conseqüente golpe às bases morais de sustentação do American Way of Life, entrou cena uma seqüência de duros abalos que desestabilizaram qualquer olhar que ainda considerasse a então tida hiperpotência global. A ascensão de novas projeções sociais e políticas positivadas, por sua vez vastamente embebidas pela herança dos primeiros movimentos ecologistas do último quartel de século XX, contrariaram todas as expectativas mais pessimistas do início do Século XXI. A disseminação do microcomputador doméstico como ferramenta educacional e reguladora do tempo e produção humana provia aos netos do ‘do-it yourself’ punk - impulsionados pelo caminho e contribuição da emancipada geração yuppie - uma amálgama de oportunidades para contribuir individual e coletivamente para uma ação coletiva que transcendia a acepção cultural, agora na direção de uma expressão inovadora de ato político.

O hacktivismo: política na rede

A já ‘envelhecida’ Geração X, educada sob a tutela da democracia liberal + economia de mercado (o tão comentado arranjo “neoliberal” do ocidente contemporâneo) e influenciada por filmes como Clube da Luta e Matrix, era resguardada e preparada para a produtividade em um período sem esperanças que se aproximara no tempo presente. Após longo isolamento nas suas relações ascépticas com a nova modalidade de educação televisiva – o microcomputador –, estes jovens encontrarariam seu eldorado nas redes sociais digitais para superar os seus duros impasses sobre as questões de gênero, a afirmação do ser e a sociabilidade. Disciplinados em uma ambiência asséptica de não-dotação do convívio multissensorial intrínseco às relações sociais entre congêneres, essa Geração X desaprendera o sentido revolucionário da violência física, ao mesmo tempo em que era dotada de novas ferramentas de organização, agora descentralizadas e amplamente baseadas em fluxos imateriais de informação.

É nesse contexto que surge o chamado hacktivismo que ao mesmo tempo mantém a questão revolucionária da iluminista e sombria cibercultura, ainda que se baseando nestes princípios de desobediência civil não-violenta. Esse ativista geralmente é motivado, por um lado, pela já citada necessidade de afirmação gerada por essa neoliberal atomização dos indivíduos – e daí a questão da reputação dos pseudônimos, mesmo nos grupos encobertos pelo anonimato, se torna tão importante. Por outro, é movido por uma profunda insatisfação política derivada de situação social enclausurante, gerando uma orientação de comportamento fora-da-lei, mas jamais concebendo a destruição total do seu sistema, sendo pacífico com relação aos bens materiais e geralmente capacitado para agir sozinho, mantendo-se assim sistemicamente pertencente ao campo de orientação do indivíduo encapsulado, ainda que suas ações geralmente sejam massivas, em bando espontaneamente formado. Em um raso paradoxo, as máquinas autocráticas de governar são desmontadas pelas máquinas domésticas de reprodução assistida do modo de produção capitalista-informacional. A mudança desejada por estes ativistas contemporâneos, portanto, está diretamente relacionada à incapacidade sistêmica dos estados nacionais e pelas corporações capitalistas em estabelecer relações menos voltadas para a exploração e o controle social, desejando acima de tudo um relacionamento mais transparente e menos opressivo. O impulso do hacktivismo político contemporâneo, quando considerado em passo a frente das disputas por reputação, estão diretamente voltadas para um governo colaborativo ‘open source’, em uma metademocracia ultraliberalizada e esgarçada nas suas mais variadas instâncias de participação, com a conseqüente implosão da noção moderna de representação. Assim, a participação política eletrônica (e-participação) seria um hipotético, não-coreografado ‘sit-in’ massivo e virtual, em analogia aos atos de desobediência do movimento dos direitos civis de 1960, nos EUA.
Tudo isso, desde já, afasta qualquer possibilidade de conciliação entre o ciberterrorista e o hacktivista.

A ciberpolítica como ela é – ou pode ser

O que se constituiu e impulsionou essa forma de ação hacktivista foi modelada pelo aumento da capacidade de processamento de informações na própria rede em progressão geométrica. Esta capacidade, por sua vez, gera as condições para que os nós da rede não sejam mais os servidores ou microcomputadores, mas os próprios hotpoints de encontro entre os ativistas - a tecnologia alternativa ‘wiki’. Nesse sentido, se vê comprometida a capacidade de mapeamento, controle e punição dos Estados junto aos grupos dos anárquicos hacktivistas ou ‘cypherpunks’ (cyberpunks dotados de capacitação para manipular códigos-fonte de websites e sistemas de informação) ao passo em que não só as suas formas de organização são fluidas, mas os seus próprios lócus de atividade são orientados por um princípio de replicação fractal. Dessa maneira, os hacktivistas agem constantemente redesenhando os seus modos e espaços de atividade, compartilhando e manipulando coletivamente os seus códigos-fonte através de sites-máscaras e utilitários-soldados coordenados (os bots) que simulam comportamentos e ações humanas dentro de uma matriz combinatória pré-designada . Ou seja, em pontos de encontro tão variáveis quanto um IP e com um verdadeiro exército de robôs virtuais de comportamento coordenado, os hacktivistas utilizam-se de uma típica atuação em rede (conforme o Estado-Rede descrito por Manuel Castells) para desestabilizar o sistema, sem que com isso desejem a sua destruição.

A ciberpolítica se afirma nesse espaço virtual como uma amálgama de pós-jornalismo científico blogado, que levanta fundos e recruta militantes de modo voluntário para a organização reticular. Censura e repressão, inevitavelmente, recaem sobre o Estado como mecanismos pré-fabricados de controle sobre uma forma de ação política que aciona novas modalidades de articulações retórico-discursivas. A busca pela prestação de contas dos órgãos administrativos ou representativos junto aos seus representados decorre, no início da segunda década do século XXI, de um lado, por um profundo embate de uma ética pós-liberal dos cibercidadãos contra o hermetismo das questões gerais do Estado-Nação mundializado. A implosão das noções modernas de representação e participação políticas, ainda que esbarrem na velha discussão da inclusão digital, é hoje um problema real para as formas de organização e associação cidadãs oriundas dos séculos passados. Em sociedades liberais desenvolvidas do Atlântico Norte, onde a população participa dos pleitos e referendos presenciais do Estado de modo facultativo, a ruptura é ainda maior e tem conseqüências ainda incertas para uma futura e-democracia.

O sonho messiânico dessa catalizada Geração X ainda não havia ocorrido até dezembro de 2010, quando foi preso Julian Assange e a sua organização, a WikiLeaks, se tornou mundialmente conhecida. A partir daí, todos passaram a olhar para o passado do hacktivismo para pensar um novo mundo. E é nesse olhar que nós nos debruçaremos agora, da Colômbia ao Sri Lanka. E é nesse futuro do passado que está preso Julian Assange, é lá que nasceu o WikiLeaks e é lá que pode morrer um novo mundo perdido onde a informação não seria mercadoria.

A Internet virou Campo de Batalha


Dilton Maynard

Há quase uma década atrás, Bill Gates, escreveu um livro visionário. Nele, o Senhor da Microsoft afirmou sobre a Internet: “pessoas com interesses parecidos poderão encontrar-se eletronicamente e organizar-se sem esforço físico algum.Vai ser tão fácil organizar um movimento político que nenhuma causa será pequena e dispersa demais”. Gates tinha razão. A Internet virou campo de batalha.

A rede mundial de computadores comporta hoje uma espécie de “terrorismo virtual”. Em março de 2001, o site da TV árabe Al-Jazeera foi retirado do ar. Quem acessasse a página da polêmica emissora, era (re)direcionado a um web site contendo uma bandeira americana. O motivo: ataques coordenados por “crackers” norte-americanos. Pouco tempo depois, em maio do mesmo ano, ao menos três ataques foram desferidos contra o endereço IP 198.137.240.91 - correpondente ao domínio www1.whitehouse.gov - o site da Casa Branca. Num deles, “hackers” chineses colocaram a foto do piloto Wang Wei, morto em abril do mesmo ano quando o seu avião colidiu com uma aeronave de espionagem dos EUA.

Terreno extremamente movediço, a Internet tem sido tomada como espaço no qual ideologias encontram oportunidades equivalentes de difusão. É o que podemos ver em casos como os dos ataques aos sites do grupo extremista Hezbollah, feito por usuários israelenses. Em resposta, o Hezbollah organizou uma ofensiva à página do governo israelense. Nestes combates, são utilizados variados artifícios, desde a confecção de vírus até a tentativas de “derrubar” sites por meio de ações coordenadas (os chamados ataques tipo DoS - Denial of Service).

Não por acaso, mais de 400 cibercafés foram fechados no Irã. A justificativa para a medida é a difusão, possibilitada pela Web, de idéias contrárias ao regime. Se o ato não é elogiável, a preocupação é facilmente explicada. A Internet possui poder de fogo assustador.

Dois exemplos são observados nas home pages do Whashington Post e da já mencionada Al-Jazeera. No primeiro, é possível conferir, mês a mês, o número de baixas dos EUA no Iraque. Ali, o visitante tem acesso não somente a fotografias dos mortos em combate, bem como a informações como idade, patente e motivos do falecimento. Por sua vez, o site da Al-Jazeera disponibiliza informações que desconcertam a Casa Branca. São imagens que chocam: choro, truculências, dor, miséria. A TV árabe reserva espaço no seu site para destacar notícias sobre a resistência à ocupação do Iraque, além de levantar suspeitas sobre as supostas melhorias realizadas no país. Em ambos os casos, os conquistadores têm seus argumentos abalados. Ao contrário de outras épocas, a censura é algo extremamente difícil.

Tais fenômenos são oportunidade para refletir sobre as exigências inéditas criadas pela Internet. Trazendo até nós uma maré de informações, muitas vezes contraditórias, a Web delineia uma situação antagônica. Por um lado, ao contrário de outras épocas, o mundo contemporâneo experimenta uma massa de informações jamais vista. Isto, sem dúvida, pode promover o estabelecimento de um senso crítico mais aguçado. Mas, ao mesmo tempo, nos empurra contra a parede, exigindo pensar a liberdade política na chamada Sociedade da Informação. 

(PUBLICADO ORIGINALMENTE NO JORNAL A SEMANA. AJU, 18-24 JUL, 2004. 2A, OPINIÃO).

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A esperança de chuteiras

Dilton Maynard

(GET/UFS/CNPq)



A cena não poderia ser mais humilhante. Parado na linha do gol, com o pé sobre a bola, após ter deixado para trás toda a defesa adversária, até mesmo o confuso goleiro, que engatinhava desesperado de volta às traves, o moço observava. Quando todos esperavam o gol, o lance inesperado: com um sorriso indisfarçável, o atleta mirou o centro do campo e recolocou a bola em jogo. Castigava seu adversário não fazendo o sexto gol. Trata-se, sem dúvida, de uma atitude ousada, debochada. Este tipo de jogada normalmente acarreta para um jogador críticas e, muitas vezes, pontapés dos adversários. Mas, o que dizer de alguém que, numa cidade ocupada pelos alemães durante a II Guerra, adotou tal postura diante de um time de nazistas, num jogo apitado por um oficial da SS (Schutzstaffel, tropa de proteção) considerada a “guarda pretoriana” de Hitler? Esta é uma das narrativas presentes no livro Futebol & Guerra, de Andy Dougan (Jorge Zahar, 2004).




Originalmente chamado Dynamo (Triumph and Tragedy in Nazi-occupied Kiev), o livro conta a saga dos ex-integrantes do Dínamo de Kiev que, numa cidade ocupada pelos alemães, encontra no futebol um mecanismo de resistência à ocupação da cidade. Dividida em 15 capítulos, a obra narra a expansão do futebol como esporte de massa no leste europeu e apresenta algumas das suas principais estrelas pouco antes da chegada das tropas alemãs. Assim, o leitor entra em contato com jogadores como Konstantin Shchegotsky, intelectual e astro do futebol soviético, Nikolai Makhinya, jogador exemplar, descrito como “o sonho de qualquer treinador” por sua obediência tática e disciplina fora dos gramados; os goleiros Anton Idzkovsky e Nikolai Trusevich - considerado o melhor da URSS, além de Makar Goncharenko, Alexei Klimenko, Pavel Komarov entre outros.




O livro apresenta a construção do time F.C. Start, formado por trabalhadores da Padaria número 3 de Kiev. Na prática, a tal “padaria” tratava-se basicamente de uma fábrica, responsável pela alimentação das tropas alemãs na cidade, produzindo diariamente cerca de 50 toneladas de pães diferenciados. Além de ex-jogadores do Dínamo de Kiev, criado em 1927, o Start possuía alguns jogadores vindos do Lokomotiv, ou Zheldor (equipe originada por trabalhadores ferroviários do sudoeste ucraniano).




A Ucrânia, conhecida como “celeiro da Europa”, possuía importância estratégica para os planos de Adolf Hitler. Andy Dougan descreve o clima de perseguição e delação que o regime soviético estabeleceu durante anos aos ucranianos. Estas práticas, segundo o autor, minaram as possibilidades de resistência daquele povo. Entre lutar por uma vida sob Stálin e outra sob Hitler, parecia não haver grandes diferenças. Havia a certeza de que nada poderia ser pior. O ousado time do Start ajudou a demolir este conformismo.




O time do F.C. Start enfrentou e por duas vezes ganhou do Flakelf. Na primeira partida, o placar foi de 5x1, enquanto o segundo jogo foi encerrado antes mesmo do tempo regulamentar, quando os ucranianos venciam por 5x3 (o jogo mencionado na abertura deste texto). A designação de ambos os times merece atenção: “start”, tanto em russo ucraniano quanto em inglês significa “começo”; “flakelf”, representante da Luftwaffe, a poderosa força aérea alemã, significava os onze (elf) das baterias antiaéreas (flak). Os jogos seriam, portanto, confrontos entre os cavalheiros arianos do ar, oriundos dos quadros da SS, contra os untermenschen (subumanos) de uma padaria ucraniana.




Pouco após a vitória sobre o Flakelf, os integrantes do F.C.Start foram convidados a enfrentar outro time, o Rukh, formado por nacionalistas ucranianos que apoiavam a invasão alemã. Venceram por 8x 0. A euforia da população local e o constrangimento da SS e de grupos políticos ucranianos fizeram com que os jogadores do Start fossem enviados para o campo de extermínio de Siretz, a noroeste de Kiev, dirigido pelo Obersturmbahnfürer Paul Radomsky. Cruel, sádico, Radomsky era um assassino metódico: “levava a cabo fuzilamentos todas as manhãs às seis horas e em seguida retornava para suas dependências, para tomar o seu desjejum”, conta o autor (p.166). Ali, entregues a um militar doentio, padeceriam e, em sua maioria, morreriam parte dos jogadores do F.C. Start.


Dougan sugere de forma enfática a força simbólica do futebol como um elemento na retomada da auto-estima dos ucranianos. A leitura do seu livro ajuda a pensar a influência do tal “esporte bretão” no mundo contemporâneo. Afinal de contas, a FIFA, Federação Internacional de Futebol, possui mais integrantes que a própria ONU. No Brasil, os números indicam a dimensão que este esporte alcançou no país: conforme o diário espanhol AS, o país exportou mais de 800 jogadores em 2004. Algo equivalente a 3% do PIB. Como, então, desprezar o peso desta prática na história? Obras como Futebol & Guerra nos lembram que, na aparente inocência dos dribles e arrancadas de atacantes e zagueiros, repousa muito mais do que julgamos.